terça-feira, 8 de junho de 2010

À memória de Miguel-Manso

nunca quis ser claro mas declarou, evitou
ser escuso mas encobriu

o atributo colocou quase sempre depois
do nome (assim: um perfume de rosas lentas
insistiu no silêncio da casa) mas

meu deus meu deus a sua obscuridade
era afinal curto-circuito


de Miguel-Manso in «Santo Subito» 2010.

Ao leitor

o meu único desejo, oh Homem, é ter contigo afinidades!
sejas tu negro, acrobata, ou repouses ainda no fundo seio maternal,
quer o teu canto de virgem se ouça pelo pátio, ou manobres a tua jangada no brilho das trindades,
sejas tu soldado ou aviador pleno de resistência e de ânimo vital.

Trazias também uma espingarda com banda verde a tiracolo, quando eras criança?
ao disparar, saía do cano a rolha presa, sem perigo.
Homem, meu semelhante, quando eu canto a lembrança,
não me resistas, vem desfazer-te em lágrimas comigo!

Porque eu passei por todos os destinos. E sei apreciar
O que sente a solitária harpista na banda musical,
O que sente a tímida governanta em estranho círculo familiar,
O que sente a debutante, tremendo ante a caixa do ponto teatral!

Eu vivi na floresta, fui funcionário do Estado,
servi fregueses impacientes, andei curvado sobre livros de caixa,
estive como fogueiro em frente de caldeiras, de rosto intensamente incendiado
e, quando moço de fretes, comi restos de cozinha, e o que mais se acha.

Por isso, pertenço-te, e a todos os demais!
Peço-te que não tentes insistir!
Oh, quem dera, Irmão, que eu pudesse cair
Um dia nos teus braços fraternais!

de Franz Werfel. Tradução de João Barrento in «A Alma e o Caos 100 poemas expressionistas», Relógio d'água.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Praia do Caju

Escuta:
O que passou passou
E não há força
Capaz de mudar isto.

Nesta tarde de férias, disponível, podes,
Se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
O lume
Que na carne das horas se perdeu.

Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
Sob as folhas da tarde
Nas vozes conversando na varanda
No riso de Marília no vermelho
Guarda-sol esquecido na calçada.

O que passou passou e, muito embora,
Voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casa, a amarela,
A branca, a de azulejo, e o sol
Que nelas bate é o mesmo
Sol
Que o universo não mudou nestes vinte anos.

Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
O cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
Se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
A esquina, o gato na janela,
Em soluços quase te perguntas
Onde está o menino
Igual àquele que cruza a rua agora,
Franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
A calçada a platibanda,
Onde está o menino que também
Aqui esteve? Aqui nesta calçada
Se sentou?

E chegas à amurada. O sol é quente
Como era, a esta hora. Lá embaixo
A lama fede igual, a poça de água negra
A mesma água o mesmo
Urubu pousado ao lado a mesma
Lata velha que enferruja.
Entre dois braços d’água
Esplende a croa do Anil. E na intensa
Claridade, como sombra,
Surge o menino
Correndo sobre a areia. É ele, sim,
Gritas teu nome: «Zeca,
Zeca!»
Mas a distância é vasta
Tão vasta que nenhuma voz alcança.

O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
O lume
Do tempo que apagou.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A árvore-Peito

a Louise

secas são as raízes que do peito
brotam a autêntica carnação
do mundo nesse teu azul celeste.
o peito feito árvore do sangue intenso
o desejo revelado eras tu sob o véu
infantil da recordação.



Louise Bourgeois. «Ainu Tree» 2000